quarta-feira, 21 de março de 2012

Cidadania | Estamos rindo de quê?


Até que ponto, somos coniventes ou participativos de 'momentos de humor' relacionados as pessoas que nos cercam? Por que rir de pessoas com deficiência? Ou rir de quem mora em uma cidade em condições de pobreza? Convivência é um ato que requer habilidade e preparo, Jean Falcão toca em um assunto extremamente pertinente para os dias de hoje, no qual entra em jogo o quanto sabemos lidar com o outro e  com suas 'diferenças'. Vamos ao debate no Remussicare.





Rir é inegavelmente fundamental. Alivia, desestressa, faz a vida fluir melhor. Fazer rir é que tem ficado, infelizmente, cada vez mais aquém da atitude valorosa que deveria representar.

A educação do “politicamente correto” ensina ao longo da vida quão pequeno é chacotear. Seja o amigo “dentuço”, seja a colega “gordinha”, seja quem for. E desde cedo também somos repreendidos de acordo com o “nível de gravidade” da atitude. Reflexo claro do equívoco da sociedade, que gradua em vários níveis o quão sério pode ser um comportamento discriminatório, como se fossem diferentes entre si.

A mesma ideia comum baseia o conceito de “humor”, em nosso país pelo menos. A piada visa carregar em si um ilusório tom de banalidade que tenta mascarar a responsabilidade de quem emite e da forma como o faz, mas será mesmo que consegue? Ela também é meio de expressão, afinal.

Entre amig@s, certamente, a brincadeira tem tom mais jocoso, leve até, se estiver pressuposta a disposição de cada um em considerá-la como tal, sem desdobramentos. Coisa difícil, com essa mania chata de “procurar significado em tudo”, tão presente em nós e também tão confundida com maturidade.

Em proporções maiores - aí contemplados apresentações, programas, quadros e afins - nas quais é impossível saber das opiniões individuais de quem está do outro lado, é preciso cautela, e o melhor a fazer é realmente considerar o “politicamente correto” e mais do que isso, usar de sensibilidade em respeito ao público.

Argumentarão da necessidade de “brincar” com as características diferentes entre as pessoas. E foi exatamente aí que se perderam os limites, de modo a induzir o (in)consciente coletivo de que é importante, válido e grandioso fazer vários rirem em detrimento de ofender alguns poucos. E rindo, assumimos total responsabilidade por isso. Mas será mesmo necessário como tanto se difunde? Necessário pra quem?

Nesse caso, cabem as comparações pra ajudar o nosso debate. Entre o humor simples e cotidiano de Chaves, o humor de conceito e genial de Mr. Bean, o humor aberto de Valéria e Janete e o humor dito polêmico (pra mim predominantemente ofensivo) de Rafinha Bastos. 






7 comentários:

  1. Cidadania sempre bem representada, sob a visão crítica e inteligente de Jean. Adoro essa coluna do Remussicare ^^

    Seria hipocrisia de minha parte dizer que nunca ri da aparência de alguém, por, inevitavelmente, achar engraçado. Mas, de fato, acho que o problema em si está na maneira em como reagimos.. É incômodo ver como algumas pessoas fazem questão de chacotear as diferenças/excentricidades alheias.. muitas vezes de forma agressiva.

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    1. Valeu, Elmiro! E, de verdade, é bom saber que cê acompanha e te ver participando! =D
      Exato! É como se fosse necessário usar de chacota pra fazer rir, e não é mesmo! ^^

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  2. Tudo questão de gosto né? Embora os gostos das pessoas hoje em dia vem mudando muito e a preferencia é justamente o humor por meio que buling!

    Ps:. Colocar um episódio do "Chaves" foi covardia,Todo um jogo de sedução !

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    1. Bem verdade, Diego! E demonstrando ou direcionando nossas preferências, acabamos tendo responsabilidade com o que elas representam, nesse caso. É esse tipo de "humor", que desonra o sublime ato de fazer sorrir.

      Hahaha Chaves é exemplo dos bons a ser seguido. Faz rir há 30 anos corriqueiramente, sem um palavrão, sem agredir ninguém.

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  3. Jean, sempre genial. Parabéns, brother. Você me orgulha! :)

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  4. Infelizmente, o Brasil carece do politicamente correto. Precisamos sempre de bodes expiatórios para nos reafirmarmos: então, fascisticamente, preocupa-se demais com o outro e tornamos o outro motivos de riso e chacotas, reproduzindo os preconceitos e discriminações da sociedade conservadora. Eu , faz tempo, parto de dois princípios: se a pessoa não está fazendo nada que prejudique ninguém, deixe ela em paz. E se, como militante gay, luto pelo direito à diferença, por que vou me incomodar com a diferença do outro? Rir demais é desespero, já falava a bela canção do Frejat "Amor para Recomeçar". Me enjoa muito pessoas preocupadas com o fútil e reproduzindo em suas gargalhadas medíocres o fútil. O ser fútil não incomoda e nem reivindica nada, por isso a futilidade e a padronização são tão valorizadas, hoje. Futilidade e consumismo andam de mãos dadas e o capitalismo precisa disso para se sustentar. Enfim, eu prefiro julgar - se for para julgar - os outros pelo seu caráter. Quem ri do próximo precisa de bodes expiatórios para não rir de si mesmo, tem que constantemente reafirmar a sua pretensa superioridade, o outro erra e não eu...essa é a origem de todo o mal.
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

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  5. Por mais que eu não goste tanto da expressão (parece fruto de normativas impostas por alguém detentor de algum poder), não posso deixar de concordar que carece mesmo. A "banalização" do riso mascara - ou tenta - a discriminação enraizada E isso não é necessário pra fazer rir, absolutamente!
    Essa suposta afirmação de superioridade, invariavelmente se reverte em demonstração de fraqueza. Mandou bem, Ricardo! Valeu pelo comentário, e não deixa de debater aqui conosco, ok?

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